Espera a chuva passar…

Não há tempestade que dure pra sempre.

Nem tristeza que fica pra semente. Muito menos amor que não resiste ao tempo.

Ontem choveu um bom bocado. Já hoje amanheceu um dia lindo e ensolarado.

Contrastes esses que fazem da vida um motivo de regozijo. Nem sempre ela, a vida, se faz alegre e colorida. Dias cinzentos só nos fazem valorizar o azul do céu.

Da mesma maneira que a tristeza, a infelicidade, tornam-se instrumentos que nos fazem dar valor a felicidade.

Eu mesmo, que não sou poeta e sim retratista do cotidiano. Tenho momentos de introspecção e apatia. Por vezes me sinto lá em cima. Noutras vezes sinto-me triste e acabrunhado.

Estas idas e vindas fazem parte do meu cotidiano. Ora vou ora volto. Avoo lá em cima e rastejo por baixo.

Naquela rocinha humílima. Onde mora o Zezinho da dona Santa. Apenas os dois cuidam daquela pequena gleba de terras férteis. Já que o pai do menino escafedeu-se pra longe, num momento de desvario por não mais suportar aquela vidinha simplesinha.

Tanto o menino bom. Quanto sua mãezinha melhor ainda. Vivem numa felicidade sem dar espaço para a tristeza entrar.

Eles têm como norma de vida o descompromisso com tudo aquilo que lhes cause infelicidade. Apesar de saberem que a felicidade  não se encontra em todos os lugares.

Aprenderam, com alegria, que a beleza mora nas flores e nas asas coloridas das borboletas.    E que a felicidade por vezes se torna difícil de encontrar. Ela se acha na simplicidade dos lares onde reside a cumplicidade e harmonia. E não se deixa ver onde a discórdia prepondera. Onde as agressões mútuas fazem parte daquele lar que não deveria ser chamado assim.

Tanto Zezinho como sua adorada mãezinha dona Santa acordam bem cedinho. Cada um tem suas responsabilidades. Dona Santa cuida da limpeza da casa.  O menino Zezinho tem ao seu encargo tratar das galinhas e colher os ovos.

E como tem chovido nesse começo de janeiro. Chove ao despertar do dia e a chuva não para no escurecer da noite.

Chuva moderada é bem vinda. No entanto em demasia pode ser prejudicial.

Foi num dia extremamente chuviscoso que naquela rocinha apeei.

Meu carro quase atolou naquela estrada barrenta. Numa subida inclinada tive de ser guinchado por um trator.

Era quase hora do almoço quando no terreiro da casa do Zezinho parei.

Chovia torrencialmente. No alto do céu o cinza predominava. Quase tudo estava alagado. A enchente quase entrava na singela morada da dona Santa e seu filho Zezinho.

Um tanto, e muito preocupado com a tempestade pedi abrigo dentro daquela casa humilde. Do lado de dentro da cozinha reluzia a limpeza e o capricho.

Tive o cuidado de tirar minha bota de borracha antes de pisar o chão limpinho. Dentro da cozinha estavam o menino Zezinho e sua amada dona Santa.

Serviram-me um delicioso café com pão de queijo feito na horinha. Comi aquela iguaria de chofre. Não carece dizer que estavam deliciosos.

Que acolhida generosa tive naquela hora tempestuosa.  Senti-me em casa embora não fosse a minha.

A tarde continuava a tempestade. Mal se via o azul do céu.

A noite quase se mostrava escura. Era hora de ir embora. Pernoitar naquele lar abençoado não estava nos meus planos. Mas como voltar à cidade naquela tarde, quase noite, por aquela estrada enlameada? Naquela hora tardia por certo o trator reboque não estaria ao meu dispor.

Olhava pro lado de fora. Continuava a chuvarada. Meu relógio preocupado me dizia: “olha meu amigo apressado. Seria prudente dormir por aqui mesmo. Na manhã seguinte pode voltar ao seu destino. Não cometa o desatino de sair daqui com esse tempo ruim. Amanhã com certeza o tempo melhora”.

Mas eu, consumido pela minha pressa do afogadilho fiz menção de sair assim mesmo. Calcei de novo minha bota de borracha. Tomei um guarda chuva emprestado ao menino Zezinho. Despedi-me agradecido da sua mãe dona Santinha. Pus o pé direito do lado de fora da porta da cozinha e a chuva não cessava. Chovia mais forte ainda.

Foi ai que ouvi o conselho de um adulto experiente dado por uma criança ainda começando a viver.

“Preste atenção meu amigo doutor Paulo Rodarte. Olha pra cima. Veja no céu como estão bonitas as estrelas e a lua. Não seria prudente esperar a chuva passar? E pernoitar por aqui mesmo? Temos um quarto de sobra reservado aos passantes.”

E não é que na manhã seguinte a chuva serenou? O sol fez as pazes com a chuva?

Foi nesse dia que aprendi a lição. Não há tempestade que dure para sempre. Nem tristeza que não cesse dando lugar à alegria. Assim deve-se viver. Esperando que um dia as coisas melhorem…

 

 

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