Faz mal?

Naquela madrugada de segunda, com muita chuva a cair no lombo desprotegido de qualquer abrigo, Arturzinho foiçava um matagal enorme.

Trabalho não lhe metia medo. Desde criancinha o menino Artur foi acostumado a qualquer tipo de serviço. Carpir lotes vazios. Lavar carros na rua onde morava. Vender jornais num semáforo antes que o sinal verde indicasse de novo o ir e vir dos carros.

Para o menino Artur não tinha tempo ruim. Ele se desdobrava entre as lições da escola e a labuta cotidiana. Sempre acordava bem cedinho. Já antes dos sete aninhos Arturzinho já era bem crescidinho. Destoava dos seus irmãos por ser o maior deles. Aos dez já media mais de metro e mucado. Aos doze já era capaz de trocar lâmpadas sem carecer de subir em uma escada. Na escola era apelidado de girafa. Pra muitos colegas uma pessoinha prestativa e dada as boas amizades.

O tempo deixa marcas na gente. No jovem Artur as marcas e cicatrizes eram evidentes no seu corpo apolíneo. Muitas delas devidas a sua disposição ao trabalho. Aos vinte anos já havia juntado um patrimônio respeitável. E muito respeito daqueles que o conheciam.

Foi num dia de semana que o conheci. Artur estava no seu lava jato, de mangas arregaçadas ele mesmo ensaboava um carro.  Ele não tinha parança.

“O trabalho não me cansa. Canso-me sim em descansar”.  Dizia ele no intervalo entre um carro e o seguindo.

Naquele fim de tarde, a noite já lambendo a escuridão, deparei-me com o jovem Artur tomando um lanchinho.  Coisinha frugal, se bem me lembro. Um pãozinho com mortadela e uma garrafinha de coca cola geladinha.

Já era quase sete da noite. O derradeiro carro já estava prontinho a ser entregue lavadinho.

Foi quando uma mocinha, dessas filhinhas da mamãe, acompanhada de sua mãezinha. Prontinha a pegar seu carro. Antes de fazer o pago a ela perguntou: “mãe? Pague pelo serviço. Não vou sujar as minhas mãos. Acabei de fazer minhas unhas e não quero arranhar o esmalte. E nem sujar meu sapato novo nesse lugar onde se lavam carros. Por favor, mãezinha. Vou ficar aqui fora esperando a senhora trazer meu carro. Pra mim faz mal entrar num ambiente desse. Posso me contaminar com água suja”. Artur, prontamente, fez o que a menina moça gostaria.

O carro da mocinha, aquela pra quem tudo faz mal, foi entregue como novo reluzindo a limpeza.

Assim que as duas foram embora. A mãe e a filha dondoca. Artur, educado como sempre foi, a mim confidenciou.

“Pra mim faz mal ficar à toa e não trabalhar. Acostumado, desde cedinho, meninote ainda, a não recusar serviço. Pra mim faz mal não fazer bem o que tem de ser feito. Aqui, no meu lava jato, se o cliente não fica satisfeito ele não paga. Pra mim faz mal tratar mal as pessoas. Cada um tem o tratamento que merece. Melhor ter amigos a desafetos. Pra mim faz mal recusar um aperto de mão. Mesmo que seja daquele desconhecido, mal vestido, sujismundo, que nos oferece a sua mão. Pra mim faz mal não tratar bem as pessoas. Todos merecem um tratamento digno, independente do seu status social. Pra mim faz muito mal não ter compaixão. Devemos ajudar a quem precisa, tanto de afeto como de ajuda material. Pra mim faz mal tentar ludibriar aos outros. Devemos ser justos com aqueles que nos procuram. Pra mim faz mal falar da vida alheia. A vida dos outros só a eles interessa”.

E ele seguiu enumerando tantos faz mal que acabei deixando o Artur falando sozinho.

Não sei se fiz bem ou mal. Mas hão de concordar comigo. Falem mal ou bem, mas não deixem de falar de mim.

 

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