A vida corria mansa e sossegada para o Zé da dona Bernadete.
Ela não seria a última nem a derradeira mulher com quem Zé dividia a cama.
Pelo seu leito já passaram Sebastiana, Aninha do sovaco cabeludo, Margarida do beijo açucarado, A posuda Seriema das pernas longas e corrida ligeira pelas estradas, a tal mocinha a qual não deixou saudades já que por pouco tempo com o Zé ficou. E outras tantas que nem deixaram rastros. Elas todas passaram pela vida do Zé. E agora ele me disse que prefere viver só depois de tantas desilusões amorosas. Até que Zé não é de se jogar fora. Bem apessoado, com uma conta bancária de fazer inveja aos pobretões da vida. Zé vive numa rocinha bem perto da cidade. Ele aprendeu a fazer de tudo um cadinho. Sabe lavar roupas. Cozinhar pra ele não é problema. Fazer faxina só aos sábados. Quando ele vai a um lupanar da cidade a fim de se deitar com uma fêmea.
Zé não é de esquentar a pioenta. Pra ele tudo é bom mesmo que esteja ruim. Se chove além da conta ele nem sai de casa. Se a chuva escasseia Zé levanta as mãos pro céu e pede que o nosso paizinho do céu abra as torneiras e deixe a água descer.
Saber das novidades ele nem quer saber. Prefere viver alheio ao que se passa no mundo ao derredor. Pra ele nada conta. Já que sua conta no banco está protegida dos olhos gulosos de quem nada tem.
Zé vive a vida sem se importar com carestia da comida. Nem mesmo com a violência sem medida que aflige a população desprotegida.
Foi num dia desses que nos encontramos. Não sei se num sábado ou domingo de tarde ou noite.
Era um dia chuvoso. Estradas enlameadas e de difícil acesso.
Não era ali que gostaria de apear. Mas, como já era tarde pra voltar à cidade ali dei uma paradinha a espera de a chuva parar.
Zé estava assentado à porta de sua casa pitando um paieiro apagado já que não sabia tragar.
Tranquilo como de costume entregue ao ócio na sua vidinha sossegada.
Naquela semana noticias nada alvissareiras eram dadas pela mídia.
O mundo estava em efervescência. A guerra entre a Ucrânia e a Rússia não dava sinais de terminar. Israel voltou a bombardear a Palestina. Agora reduzida a um amontoado de escombros em ruínas. O presidente norte americano se indispunha com o resto do mundo. Sobretaxando produtos e ameaçando tomar posse da Groenlândia.
Em São Paulo enchentes enchiam a paciência dos infelizes moradores. E o pior estava pra acontecer. O Flamengo estava na iminência de ser rebaixado ao segundo escalão da segunda divisão.
Na distante Austrália nosso João Fonseca foi derrotado na primeira rodada. E volta causando revolta nos seus torcedores que dele esperavam desempenho melhor.
E nada de noticias boas. De boa literatura ninguém queria saber. Já que ler não fazia parte do costume de nossa gente brasileira. Livros mofavam nas prateleiras das bibliotecas ou casas livreiras. Futebol e política eram de nossa predileção.
Naquele dia chuviscoso dei com o Zé entregue ao seu sossego. Vendo a chuva cair e esperando o sol brilhar.
Como não tinha pressa de voltar à cidade. A espera de a chuva parar. Com o Zé puxei prosa.
“Zé, tá sabendo que o preço da gasolina vai aumentar? E que o salário dos deputados vai subir de novo? E que o preço do ovo vai ficar mais gordo na semana santa? Já que na quaresma as galinhas fazem greve de botar? E sabe também que a taxa de feminicidios aumentou sobremaneira no ano passado? Nunca se matou tanto as mulheres. E que a Europa declarou boicote ao nosso pãozinho francês que nem sabe falar francês. Zé, a coisa tá ruim amigo. E vai piorar”.
Zé coçou a cabeça careca. Deu um suspiro bem dado. Fechou os olhinhos remelentos de sono e me disse num muxoxo chocho.
“Ah! Tô nem aí. Pra mim tanto faz. Não fede nem exala mau cheiro. Vivo as minhas custas e não me custa nada. Tenho dinheiro guardado dentro do meu colchão. Se sinto fome como. Se não faço dieta. Tenho saúde a dar aos outros. Vivo a minha vida sem me lixar com a de segundos ou terceiros. Faço apenas o que me apraz. Quase não assisto ao noticiário da televisão e apenas bons filmes pela Netflix. Se me preocupar com o que acontece ao derredor não vivo. Dai a minha alegria em continuar vivo, e bem”.
Virei as costas e deixei o Zé rindo na sua banguelice desdentada. Mastigando com as gengivas rosadas um torresmo duro de fazer cair o resto dos dentes que não tinha mais.