O que seria a vida senão uma corrida de obstáculos. Fases que a gente vive. Uns mais outros menos. Até o final de nossos dias.
A gente passa por tantas coisas… Alegres ou tristes.
Deixamos a infância se perder de vista. Ao longe vemos a mocidade desaparecer.
A fase produtiva, dita adulta, quando a responsabilidade nos diz ser a hora de deixarmos a farra aos mais jovens. Quando ajuntamo-nos a mais uma pessoa. E ela nos deixa como legado uma penca de filhos. Que hoje nos dão netos. A vida passa a ter mais sabor.
Já passamos por tantas coisas. Quando ainda tínhamos nossos pais do lado tudo eram flores. Por vezes eles nos deixavam de castigo. Por uma falta pra nós pequenininha. Cabulávamos aula. Brigávamos na escola e chegávamos a nossa casa avexados por termos levado uma surra. Com olhos roxos e joelhos ralados na terra batida. Mesmo assim não éramos repreendidos. Mas no dia seguinte a mesma coisa acontecia. E não tomávamos vergonha na cara. Uma carinha tinta em vermelho da cor do pecado. Que pra nós era um pecadinho.
Já na juventude, que pra nós não era transviada. Usávamos calças boca de sino feita em pano brilhoso. Cabelos perfeitamente alinhados em lindas madeixas. E íamos a bailes de carnaval cheirando lança perfume. Embalados por músicas como aquelas: “vou beijar-te agora. Não me leve a mal,. Hoje é carnaval”.
Já passei por isso e aquiloutro. Quando, concluído o segundo grau. Outra etapa de nossa vida tinha de ser vencida. Já pensando no que iríamos ser. No meu caso não apenas grande pois não cresci mais que um metro e mucado. Era tempo de transpor mais um degrau de uma escada que no começo pra nós não tinha fim. Era a época temida do vestibular. A medicina já me seduzia. A especialidade de urologia só depois de experimentar a dor de um cálculo renal me fez enveredar por esse caminho sinuoso. Difícil especialidade que mais e mais se moderniza nos fazendo aposentar de vez o bisturi.
Foram bons anos aqueles passados na faculdade de medicina. Morava pertinho do parque municipal da linda BH de antão. Foram cinco anos apenas. Que passaram num piscar dolhos. Mas não paravam por aí minhas andanças. Carecia me especializar pois ainda era médico pela metade. Não ainda apto a exercer a medicina em plenitude. Foi então que me deu um comichão de ir ao exterior. Completar minha formação em urologia em terras da Espanha. Onde aprendi a ver, ouvir e calar pra não molestar.
De volta ao meu Brasil, fumando cachimbo sem saber fumar. Usando nos pés um tamanco branco que ao andar fazia tic toc. Com um bigode negro como as asas da graúna. Um cabelo que hoje raleou deixando-me parecido ao meu saudoso pai. Fui o pioneiro na minha arte por essas bandas. Introdutor da cirurgia de próstata por via uretral.
Naqueles tempos idos já passei por muitas coisas. Tive sucesso em muitas operações. Noutras tremi como vara verde ao sabor da ventania. Operava com ajuda de um enfermeiro. Não me acostumei a trabalhar em equipe. Do que não me vanglorio.
Passei, na minha vida profissional, por momentos de júbilo e de descontentamento. Foi quando perdi meus pais e parte de mim foi com eles ao sepulcro. Cresci internamente quando meus filhos nasceram. Espichei ainda mais quando eles me deram netos.
Agora, nessa hora quase madrugada quando escrevo. Aos setenta e sete, completos em sete de dezembro pretérito. Passados tantos anos da minha meninice peralta. Deixando minha juventude me olhar lá bem atrás. Desde quando aprendi a cultivar a arte de escrever. Mais de vinte e cinco anos passados. O que seria de mim sem essa capacidade de por pra fora meus sentimentos. De enxergar a luz mesmo na escuridão. De ver além das entrelinhas. Tudo isso me fez melhor.
Pretendo ainda passar por muitas coisas. Deixar compiladas mais um amontoado de crônicas. E quem sabe mais um ou dois romances?
Já passei por muitos momentos em minha vida terrena. Noutra quem sabe onde ela fica? Se sabem me digam antes da minha partida…