A gente vai deixando pra trás

O tempo e os anos pregam peças na gente.

Com o passar dos anos ficamos indiferentes. À idade que chega. Aos cabelos que embranquecem. A beleza que se cobre de rugas. No entanto dos entre tantos as lembranças se avivam.

Como me lembro da minha infância. Dos primeiros cinco anos quase não me recordo mais.

Foi quando vi o mundo pela primeira vez. Nascido não aqui e sim numa cidade próxima. De nome que me lembra esperança e boa. A linda Boa Esperança de agora cobriu parte de suas terras. O redor daquele lago, formado por uma represa, um dia percorri. Foi a única e vez primeira que tive a felicidade, carregada de saudade, que naquela linda cidade finquei meus pés. Fui caminhando por aquela rua que me viu nascer. De nome Coqueiral. Cidade perto que lhe deu o nome. Sabia de antemão que foi naquela casa onde vi, ainda menininho, recém nascido, o sobrado da dona Didi. Senhoria dos meus pais, agora transformada num centro cultural. Foi exatamente naquele lugar aonde vim conhecer o mundo. O mesmo mundo que se descortinou pra mim noutra cidade. Aquela onde agora vivo e pretendo viver por muitos anos mais.

Aos cinco anos mudamo-nos. Não por minha vontade. Quem era eu, um menininho ainda, para decidir nosso destino.

Meu saudoso pai, funcionário de carreira do banco do Brasil. De vez em quando se mudava. E mudávamo-nos nós. Minha mãe e euzinho.

Para aquela rua, que daqui se deixa ver nesse dia chuvoso. A Costa Pereira de tantas lembranças que se perenizam dentro de mim, foi onde passei minha infância e parte da mocidade. Ali aprendi a valorizar as boas amizades.  Pena que alguns amigos da Costa Pereira agora brincam noutra vida. E devem cultivar outras amizades entre os anjos do céu.

Já cansei de falar em reminiscências e saudades. Mas elas duas teimam em se enraizar dentro de mim.

A Costa Pereira não me deixa. Sempre passo por ela ao cair das tardes.

Com o tempo a gente vai deixando pra trás tantas coisas…

Uma delas pra mim é a ambição e a soberba. Não mais fazemos questão de ajuntar patrimônio. Tudo que ajuntamos nos basta. Ja que nossas posses não nos pertencem mais.

A vaidade se foi à distância. Aquelas lindas melenas topetudas deixaram lugar à calvície brilhosa. Aquele bigodão negro foi raspado pois embranqueceu. Aquele sorriso branquinho mal de deixa ver. Agora os dentes caíram e foram substituídos por uma dentadura.

A vontade de namorar acaba dormindo cedinho. E só fica o desejo já que não mais damos conta de fazer amor.

A gente vai deixando pra trás muitas coisas. Entre elas a pretensão de viver por muitos anos mais. Já vivemos o suficiente. E é chegada a hora da despedida para uma viagem sem volta a um lugar desconhecido.

Deixamos pra trás saudades doidas. Quando aquela pessoa, da qual sentimos saudade nos pede e nos diz. “A vida é feita de escolhas. Você fez a sua. Por favor, me esqueça”.

Deixamos pra trás a vontade e o desejo de ir adiante. Já que nosso caminhar com o tempo se torna trôpego e carecemos de muletas para andar.

Deixamos pra trás a juventude e a infância. Meus oito anos não voltam mais.

Deixamos pra trás a saudade dos nossos pais. Que bom era tê-los ao nosso lado. Mesmo a hora do castigo pra nós não merecido.

A gente vai deixando bem atrás as lembranças dos bancos escolares. Aquele caderninho pautado, aquela borracha de duas faces, aquela carteira dura que nos dava dor na coluna, aquela professorinha recatada que nos ensinou o baba. Agora fazem parte de um passado pra onde não se retorna mais.

A gente não retrocede mesmo que a vontade implore.  Caminhamos sempre no sentido das horas que passam num ritmo frenético. Se eu pudesse pedir aos ponteiros dos relógios que andassem ao revés falo-ia. Mas eles não me escutam e continuam a andar como giram.

A gente, por mais que gostaríamos, deter e fazer retroceder a marcha do tempo, no meu entender é um contratempo.

Ah se eu puder entrar numa máquina do tempo. Me ver voltar aos verdes anos nunca amadureceria. Permaneceria eternamente criança e jamais iria crescer.

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